Capítulo 7: "Ananias"




Saindo do Arraial em direção à Fazenda Águas Frias, já no comecinho da estrada está o Cemitério. E após a primeira curva, avista-se o portão da Escola Rural; seguindo mais uma centena de metros, ao lado esquerdo da estrada existe uma trilha estreita e escura, meio oculta entre árvores frondosas e que leva até o casebre de Ananias.
Ananias era um velho mestiço de pele morena, descendente de escravos africanos e senhores brancos. Velho demais, Ananias desconhecia a própria idade, embora a rugosidade da pele indicasse passar há muito dos noventa anos. Acometido pela hanseníase que naquela época se alastrava facilmente pelos sertões mineiros, o ancião vivia isolado do mundo em seu pequeno rancho: um casebre de adobe, coberto de sapé.
Muito bem cuidada, a residência mostrava o capricho do dono, que apesar das dificuldades e limitações impostas pela doença, ainda dava conta de arrumar os feixes de sapé no telhado e consertar as portas e janelas. Vivia só, na companhia de um burrinho manso com idade aproximada de cinquenta anos, e que ele afirmava ter criado desde filhote. O burrinho chamava-se “Aristide”. Não me pergunte o por quê, mas acredito que lhe foi dado nome de gente porque o burrinho estava mais próximo de Ananias do que os próprios humanos...
As crianças do Arraial tinham medo do Ananias, que embora sempre andasse maltrapilho e com faixas de pano enroladas nas mãos, nos braços e nas pernas cobrindo-lhe as chagas, não fazia mal a ninguém. Parece até que o velho compreendia que o seu aspecto inspirava terror nas crianças, que aconselhados pelos pais, jamais se aproximavam dele, com medo de “pegar a doença”. Por isso, pouquíssimas vezes saía do casebre à luz do dia para ir ao Arraial. E quando fazia isso, era hostilizado pelas crianças, que de longe apontavam o dedo para ele, xingando-o de “velho morfético”, enquanto os pais ralhavam com os pequenos, pondo-os para dentro de casa e fechando a porta.
Pobre Ananias! Ainda que o Vigário lhe oferecesse ajuda, propondo tirá-lo de lá, levando-o à Vila Vicentina – um asilo recém-instalado em Acemira, o qual chamavam de “Conferência” – o velho caboclo se recusava a abandonar seu ranchinho. Em Acemira, no asilo, haveria para ele um pequeno quarto e cozinha, duas pequenas peças isoladas e afastadas do restante da construção, onde Ananias poderia passar o final da vida sob a proteção da Paróquia. Mas Ananias não quis. Talvez receasse pelo destino dado ao burrinho, assim que fosse embora para Acemira!
Para sobreviver, além da esmola que as pessoas deixavam ao lado de fora das casas toda vez que aparecia no Arraial, Ananias também vendia as frutas de um pomar que cultivava no fundo do quintal – principalmente o abacaxi, que com muita dificuldade ele transportava em sacos durante a noite até o alpendre da Escola Rural.
Quando isso acontecia, no dia seguinte um dos alunos (que vinha para a Escola de charrete), transportava a carga até a margem do lago, deixando-a ao pé do barranco junto do batelão; que depois as professoras se encarregavam de trazer até Acemira, onde piedosamente se responsabilizavam pela venda, trazendo-lhe o dinheiro na próxima aula, e que era deixado no mesmo lugar, no alpendre.
No Arraial, o velho Ananias sempre fazia as compras ao cair da noite, quando todos já se recolhiam, ficando assim, quase sem nenhum contato com os humanos – exceto com o dono do armazém e mais duas pessoas:
O Vigário, que na sua fé, sem temer a enfermidade de Ananias, ia no casebre visitá-lo de vez em quando para tomar sua confissão;
E Maurício, que sem noção do perigo que a enfermidade de Ananias representava, sempre o visitava, para ouvir suas histórias.
Maurício que sempre foi curioso, desceu certa vez pela trilha que vai até a casa do Ananias – só para ver o que havia por lá. Era ainda criança quando conheceu o velho Ananias. Naquele dia voltava do Arraial, onde sua mãe pedira-lhe que comprasse alguma coisa.
A casa estava fechada, e parecia não ter ninguém, porém “Aristide”, percebendo a presença do menino, zurrou lá no quintal, nos fundos da casa. Apoiando-se na bengala, Ananias logo surgiu, pois estava limpando as covas de abacaxi, que plantava perto do pomar...
Apesar da advertência do velho, que de longe lhe acenou mostrando as mãos deformadas e roídas pela lepra, Maurício se aproximou do lugar.
Após se identificarem, conversaram por quase uma hora, com o velho contando-lhe parte de sua história, a cada pergunta curiosa do menino. E assim, nasceu a partir dali uma grande amizade entre os dois extremos da vida humana: Entre o início de uma vida e o final de outra...
Maurício visitava Ananias com frequência. Ajudado por Adriana, o menino tirava da cozinha de sua mãe doces e biscoitos, colocando-os num embornal, para levá-los depois à casa do velhinho. Sua mãe nunca soube disso, é claro. Nas ausências do menino, pensava que ele estava brincando nos campos ou sentado debaixo de alguma árvore escrevendo textos, como era seu costume.
Ananias que sentia por Maurício o amor de um avô pelo neto que nunca teve, certa vez presenteou o menino com um bodoque (estilingue), fazendo-o prometer que jamais faria uso do brinquedo atirando nos passarinhos, mas que o usaria apenas para derrubar as frutas mais altas do pomar. Embevecido com o “neto de criação”, contava-lhe as histórias, lendas e crendices daquele lugar, ilustrando-as ricamente com a imitação da voz dos personagens.
Maurício, que o ajudava na manutenção do pomar e da plantação de abacaxis, ouvia fascinado as histórias que o velho contava. Ananias era analfabeto, mas sabia contar histórias como ninguém! Não só as lendas Ananias contava, mas até mesmo algumas histórias bíblicas ele conhecia. E a sua predileta era a história de Lázaro – o leproso...
Maurício prestando a máxima atenção, ao voltar para casa copiava todas histórias do velho em folhas de papel para não esquecer nunca mais. Na verdade, eram os textos que sua mãe viu o menino escrever sentado debaixo das árvores do quintal.
E se hoje todos esqueceram o velho hábito de contar e ouvir estórias – pelo menos naqueles tempos o melhor exercício para a imaginação era a propagação das lendas e do folclore. A observação da Natureza despertava a imaginação, criando personagens e belíssimas estórias que eram passadas de uma geração à outra... E Ananias, mesmo analfabeto, sabia contar todas elas: Falava do Saci-pererê, do Curupira, da Yara mãe-d’agua, do Caipora, do Negrinho do Pastoreio, Sereia e tantos mais...
Algumas dessas lendas foram trazidas pelo povo africano, dentro dos navios negreiros. Outras nasceram aqui mesmo, na boca do povo indígena ao redor das fogueiras acesas no meio do terreiro, que à noite mantinham as feras longe da tribo. E outras, vieram com os colonizadores europeus. Como as lendas têm uma forte ligação com a natureza, qualquer característica interessante dos animais já era um motivo que fizesse nascer uma estória, e que dentro de algum tempo se tornava uma lenda, da qual ninguém mais pode afirmar se realmente aconteceu, se tudo que se diz é verdade ou apenas fantasia.
Assim foram criadas as estórias que falam de lobos, do boto cor-de-rosa, da coruja, do pássaro uirapuru, etc. E inclusive da gralha, que é um pássaro da família dos corvos. E por falar em gralhas, você por acaso conhece este pássaro? Ananias contava uma história interessante sobre eles. Esse pássaro, que já existiu desde a Zona da Mata na Região Sudeste do Brasil, até os planaltos do Paraná na região das Araucárias, é pouco visto agora, por aqui. Antes era abundante, mas a civilização foi extinguindo pouco a pouco seu habitat. E a gralha – mas não só ela, como outros pássaros e outros animais também – quando não se extinguiram junto com seu habitat, se viram então obrigados a migrarem para regiões distantes. É uma pena que se foram, porque com eles também se vão as estórias que o povo conta...
Por exemplo, a lenda do Boto Cor-de-Rosa: Divulgada na bacia do Rio Amazonas – onde está o habitat do boto – conta a saga desse animal, que em noites de festa sai do rio disfarçado de gente, e misturando-se no meio do povo seduz as meninas desacompanhadas, engravidando-as depois. Era uma forma de explicar a origem da gravidez fora do casamento... Na Região Sudeste não se conta a lenda, pois aqui ninguém conhece o Boto. Portanto, aqui, qualquer gravidez antecipada será mesmo o fruto de uma aventura entre duas pessoas, dois seres humanos!
Por aqui ainda resistem as estórias sobre a Coruja: Dizem que à noite quando ela pia tristemente e faz aquele barulho característico com as asas, o pássaro está anunciando a morte de alguém. O barulho imita o som de uma pessoa rasgando um véu de mortalha – aquele pano com que se cobre os corpos dentro do caixão. As corujas ainda são vistas por aqui em grande quantidade, e à noite encontramo-las pousadas sobre os cupins e mourões de cerca. E são pássaros temidos e respeitados até por pessoas adultas, ao menos pelos mais supersticiosos!
E afinal, porque as pessoas creem em algumas lendas, mas desprezam outras? Qual a diferença entre elas? A diferença é que conhecemos a coruja, mas nunca vimos o boto!... O fato é que, conhecendo-se o personagem da lenda, a estória em torno dele resiste por mais tempo também.
Ainda há outros casos, como a estória da revoada dos pássaros (geralmente os quem-quem) quando, sem nenhum motivo aparente, alçam voo com grande alarido – o bando inteiro – sumindo depois na distância, por detrás das montanhas... Quando isso acontece, diz-se por aí que a alma de alguém exalou um último suspiro e se foi, atravessando em desabalada carreira os campos cheios de animais e assustando o bando de pássaros. Outros dizem que o alarido é provocado pelos pássaros que levam em suas asas a alma pesada de alguém, que de peso, não conseguiu subir por si só.


Mas quem acreditaria hoje na estória da gralha, se contássemos que as pessoas quando morrem sem cumprir algum desígnio da vida – e sendo este desígnio algo muito importante à pessoa – elas estão condenadas a se transformarem nesse pássaro e recomeçar o ciclo da vida como espectador ou protagonista de alguma história (agora num corpo de gralha) até que seu objetivo seja alcançado, e então lhe concedam o descanso final? Com a raridade do pássaro já quase extinto nessa região, ninguém sequer lembra da pobre gralha, e muito menos vai se lembrar de suas lendas também! E olha que antigamente esse pássaro lindo, com plumagem de um azul-escuro brilhante e peito totalmente branco, já foi até criado como “bicho de estimação”! De uma inteligência extremamente aguda, e curiosíssima por natureza, a gralha tinha o estranho hábito de esconder pequenos objetos em frestas de madeira, buracos no chão ou entre as pedras – objetos como os anéis, pulseiras, botões e qualquer objeto pequeno de metal brilhante que lhe chamasse atenção. Porém hoje, é raro de se ver uma gralha por aqui.

Maurício que já tinha lido na biblioteca da Escola alguns contos e lendas do nosso folclore, desconfiava que algumas das estórias de Ananias foram inventadas por ele mesmo. Mas o velho sempre afirmou que não eram invenções dele, mas eram a sabedoria do povo, repassada de pai para filhos por muitas gerações. Enfim, foram essas as estórias contadas por Ananias e absorvidas pela atenção de Maurício...
Ou não seriam apenas estórias? Pois como eu já disse, com o tempo as estórias viram lendas, e chega o dia que não se sabe até que ponto tudo aquilo que se contou é verdade ou fantasia!


Capítulo 8: "A implicância"




Hoje o céu está nublado. Nuvens pesadas se arrastam pachorrentas pelo firmamento. O ar cá embaixo está parado, mas no alto do céu o vento empurra as nuvens e prenuncia a chuva que logo virá.
É mês de Agosto e nem todos “Agostos” são iguais. Se a Missa da Capelinha fosse hoje, ninguém compareceria, devido ao mau tempo. Aliás, o céu está assim a semana toda e se fosse naqueles tempos, certamente o Vigário nem faria o convite para Missa e a Capelinha permaneceria fechada.
À minha direita, agora vejo a Capela. Ou seja, apenas o seu esqueleto. As paredes enegreceram e o teto ruiu, restando apenas parte da armação de madeira. Uma enorme rachadura fendeu-lhe a parede da frente desde o topo até o vão onde existiu a porta, ameaçando a estabilidade e o equilíbrio da torre. Não há mais portas nem janelas. Os vitrais que Getúlio mandou trazer de São Paulo estouraram em milhões de cacos, quando o fogo a envolveu completamente.
Engraçado, como são as coisas! Falava-se do Céu e do Paraíso nos sermões do Padre dentro da Capela, mas este lugar tão sagrado para alguns, terminou seus dias em línguas de fogo dignas de um terrível Inferno! Ainda tem o pedestal da cruz do lado de fora, pouco adiante do que sobrou da Capela, e sobre ele um pequeno toco em pé, de aproximadamente sessenta centímetros. Mas é tudo o que resta intacto do Cruzeiro, porque a cruz já caiu há muito tempo. E dentro da Capela lhe nasceu arbustos pequenos que rebentaram o chão com as raízes. E há um pé de goiaba também, que hoje ultrapassa a altura das paredes, onde um bando de maritacas às vezes pousa e faz algazarras. Um pouco de vida ao menos, naquilo que já morreu!
E pensar quantas vezes os camponeses se acomodaram ali dentro! Bancos repletos e um corredor no meio que seguia em direção ao altar. Homens, mulheres, jovens, crianças e as velhas de véu negro sobre a cabeça... Patrões e agregados... Quantas histórias, quantas esperanças, quantas promessas, quantos conselhos e quantas ameaças foram ditas e ouvidas entre as quatro paredes altas, outrora decoradas com quadros de Santos e cenas religiosas. Quantas juras feitas lá dentro! Quantos batizados de recém-nascidos e quantas despedidas em Missas de corpo presente. E até casamentos o Vigário realizou ali...
Mas tudo passa nesta vida... Ou quase tudo.
Com o passar do tempo, até os dois filhos solteiros de Getúlio se casaram na Capelinha. A tradição mandava que escolhessem entre as famílias de fazendeiros nas vizinhanças, e a tradição deveria ser seguida à risca, pois junto com o casamento vem partilhas e comunhão de bens, e as terras teriam de permanecer entre as mesmas famílias pelas próximas gerações.
Eram bons rapazes.
Mas nem todos são iguais. Trabalhadores, é verdade, mas nem todos possuíam o mesmo gênio, o mesmo caráter. E vez por outra, Narciso, o filho mais velho de Getúlio, se indispunha com algum agregado e até mesmo com seus próprios irmãos.
E com Alécio – o agregado paulista – não foi diferente. Já desde o começo, Narciso dizia ao seu pai que não fora correto ceder a casa “pra esse pessoal de fora”, havendo tanta gente nas redondezas, pessoas experimentadas no trabalho braçal da roça, famílias cujos membros – pais e filhos – de compleição robusta, seriam mais úteis à Fazenda. Esse Alécio só tinha filhos magrelas, e sem vocação para o serviço da roça. O menino que estuda com Leandro, por exemplo, (referindo-se a Maurício) não daria conta sequer de laçar um burro no pasto, capar um porco, nem mesmo ordenhar as vacas no curral...
Getúlio retrucava, dizendo que nem tudo era força bruta. Precisavam também de pessoas que fizessem contas, que soubessem ler e compreender um documento, que pudessem consertar o telhado e reformar a tulha, e tantas outras coisas que eles não tinham tempo de fazer ou de aprender, e que além de tudo, Alécio e sua família eram pessoas “de fora” mas eram pessoas honestas, bem diferentes de uns e de outros que mesmo sendo dali, lhe roubaram milho, café, arroz e gado na primeira oportunidade que tiveram.
Mas Narciso não se convencia. Nunca aceitou. Retrucava que para isso, já bastava o Cássio, que viera de Curuajubá.
Na verdade, Getúlio sabia que Narciso estava com a razão, se fosse olhar pelo lado prático. Mas desde que Alécio veio lhe pedir serviço, o velho senhor das terras concedeu emprego à família porque se compadecera deles. Narciso não entendia. E por causa de uma vaca que seu pai cedeu à família de Alécio, começou a implicância mordaz e amarga de Narciso contra Alécio, o agregado que viera de São Paulo na esperança de dar aos filhos uma vida mais sossegada, tranquila e menos atribulada do que aquela vida que a cidade grande oferece às pessoas pobres.
Ah! Soubesse Alécio como seriam as coisas, e talvez não tivesse aceitado o convite de vir morar na Fazenda. Mas como sempre dizia Amélia, em suas conversas com Cecília: “não sabemos o que há de vir em nossas vidas no futuro e nem conhecemos nossos destinos”. As coisas poderiam ter sido melhores, mas também poderiam ter sido piores. Quem vai saber? Porém, as coisas são como elas são. E simplesmente as vivemos, querendo ou não. E a vida vai correndo o seu curso, ela não faz atalhos nem volta algum ponto para desfazer um malfeito e recomeçar o que já fez. Algumas vezes o tempo apaga suas marcas, outras vezes verte em consequências vindouras, e ainda outras vezes se transforma em lembranças... E o punho poderoso do tempo vai escrevendo suas histórias, das quais o homem é somente um personagem coadjuvante e sem muita importância.



Capítulo 9: "Adriana"




Maurício enfim conversou com o pai e pediu a ele se poderia voltar à pequena cidade Acemira, onde se mudaram no dia que vieram de São Paulo. Houve muita consternação por parte da família, mas estava à vista de todos que Maurício não fora feito para o trabalho da roça. Os tempos mudam – considerou Alécio – e vai que ele consegue mesmo algum serviço na Prefeitura, ou nalgum mercado ou armazém da cidade. Talvez num emprego desses, conseguisse um dinheiro extra, que pudesse lhe sustentar e também pagar algum curso, talvez até sobrasse alguns tostões para mandar aos pais de vez em quando... Mas é difícil a decisão de deixar um filho sair de casa. Todavia, Alécio conversou com as poucas amizades que fez na cidade – pelo pouco tempo que ali viveu – e arranjou um serviço experimental para Maurício num pequeno comércio à beira do lago, cuja vista era para o outro lado da margem, onde a poucos quilômetros ficavam as terras de Getúlio. Alugou um pequeno cômodo na cidade e para lá despachou o filho, sob a promessa que jamais passaria dois finais de semana sem cruzar o lago e aparecer na casa dos pais para todos juntos almoçarem em família, como sempre fizeram. Marina chorou muito, mas outra vez, deixou que a decisão de Alécio tivesse prioridade sobre as suas vontades.

Adriana já tinha visto Cecília algumas vezes.
Gostava de participar dos mutirões com seu pai e seus irmãos. E na grande reunião que se dá após o trabalho, reunidos todos no terreirão da Sede, Adriana e Cecília faziam suas refeições sentadas lado a lado sobre a mureta da varanda, vez por outra participando das conversas. E Adriana tinha por Cecília um certo afeto, um sentimento de simpatia e um desejo de se tornar sua amiga, apesar de ser apenas a filha de um agregado.
Muito próxima de Maurício, apesar de ser mais nova, tinha por ele um instinto maternal, protetor. Socorria-o sempre dos irmãos mais velhos e sempre foi cúmplice de seu irmão nas travessuras da infância e pré-adolescência. Andava tristonha porque a presença do irmão lhe fazia falta. E preocupava-se com a qualidade de vida que seu irmão levava, morando sozinho agora, lá em Acemira.
E assim, quando se realizou o último mutirão daquele ano, Maurício não compareceu. Cecília notando a falta no terreirão na hora das refeições, perguntou para Adriana:
__Teu irmão não veio, né? Está adoentado? Não o vejo nem mesmo cruzando a estrada junto com seus irmãos, cada vez que eles descem até o Arraial... Ele está bem?
__Está sim – disse Adriana – papai mandou-o de volta a Acemira, e arranjou-lhe um serviço no Bar do Josias, aquele bar que fica defronte o lago... O Maurício tem ideia fixa de voltar para São Paulo, coitado, mas o papai não quer, minha mãe morreria de tristeza também. Mas ele é determinado e sonhador. Disse que mesmo que não se mude para a Capital, ele vai lutar e vai estudar como puder, e vai melhorar de vida; e quem sabe um dia vai comprar uma casa na cidade. E quer levar todos nós para lá, se isso der certo. Mas apesar de morar sozinho, ele está bem e sempre aparece lá em casa! Papai o fez prometer que não passaria quinze dias sem vir aqui nos visitar. Acho que Domingo próximo ele vem.
__Vem a pé? – perguntou Cecília curiosa.
__Sim, vem a pé. Não tem outro jeito né? Poderia vir pela estrada que faz o caminho pelo lado da Serra... mas sem possuir um cavalo, não tem condições de dar toda essa volta. Então ele pega emprestado o barco do Josias e atravessa o lago, e infelizmente, só pode fazer isso a pé – respondeu Adriana.
Acemira só tinha um caminho por terra, pois os rios que formaram um lago à sua volta, circulando-a como um bonito colar, deixaram-na ilhada, sem saídas – exceto pela única estrada que percorria o alto do espigão e seguia para o lado do nascente do Sol, fazendo voltas e mais voltas até que num ponto distante se encontrava com aquela estrada que serpenteava descendo a Serra – a mesma estrada que os filhos de Getúlio tomavam, quando levavam a safra até a Cooperativa de Curuajubá – a dois dias de viagem (eram quatro dias para ir e voltar, conduzindo carros de bois). Quem quisesse vir de Acemira – onde Maurício estava, até as terras de Getúlio seguindo pela estrada, deveria fazer uma longa e cansativa viagem de aproximadamente quatro horas a cavalo, em marcha de trote rápido.
Mas atravessando o lago de barco, ele aportava do outro lado da margem a apenas meia légua do Arraial; esse era o caminho mais curto, pois do Arraial até a Sede eram mais uma légua de distância. E da Sede até o casebre de Alécio, percorria-se outra légua, completando assim uma caminhada de quinze quilômetros – quando se considera a légua como uma distância de seis quilômetros cada.
__Teu irmão me prometeu uma redação. Diz o Leandro que ele escreve muito bem, e eu fiquei curiosa... e aqui na roça a gente não tem muita coisa para ler... Mas certamente já se esqueceu do pedido, pois agora vive na cidade e, com certeza, leva uma vida mais animada do que a nossa, aqui nesse buraco de terra... – lamentou Cecília.
Então Adriana, lembrando-se daquele dia em que os dois conversavam ao lado do cactus perto da porteira, respondeu:
__Bom, realmente a vida deve ser mais agitada por lá, mas se ele prometeu, ele não esqueceu. Ele vai escrever. Pode até ser que não escreva por esses dias e até mesmo que nem lhe entregue pessoalmente, porque meu irmão parece um bicho-do-mato, é um rapaz muito tímido. Não fez amizade na Escola com os meninos e muito menos com as meninas! Morre de vergonha e evita lugares onde há concentração de pessoas, principalmente de mulheres. Meus outros irmãos já paqueram as meninas dos agregados nas festas de quermesse e no Arraial, quando vão de bando até lá. Mas o Maurício... Aquele, coitado, não sei quando vai arranjar uma namorada, pois nem consegue olhar para as meninas, quanto mais falar com elas! Então, por causa dessa timidez dele, se eu fosse você não esperaria tão cedo aquela redação que lhe prometeu. Mas esteja certa que um dia qualquer ele fará. E quando fizer, você vai ler. Maurício é firme no que promete.
Então Cecília fez o convite:
__Eu sei que o tio Narciso não tem muita amizade com seu pai, Adriana, mas não leve por mal minha família. Meu avô sempre considerou muito bem as pessoas que trabalharam com ele e respeita muito o seu pai. E eu queria que você de vez em quando aparecesse aqui na casa do vovô. Tia Amélia faz umas quitandas deliciosas e quase não vem ninguém da minha idade aqui na Sede. Nem mesmo as minhas primas têm aparecido por aqui ultimamente... Também estão arranjando seus namoricos com os meninos das outras fazendas, já namoram até mesmo o Luizinho e o Davi – filhos do Silvério, e se esquecem de vir na casa do avô. Eu passo a semana toda aqui, gosto muito de ajudar tia Amélia e ela é como se fosse minha própria mãe, mas não tenho ninguém da minha idade para conversar.
Então Adriana falou:
__Obrigado, Cecília. Vou falar com meus pais, e se permitirem, eu venho sim. Tenho muita simpatia por você, e olha, nunca levamos por mal a tua família – apesar da briga do Narciso com meu pai – saiba você que meu pai tem uma grande admiração pelo Sr. Getúlio, inclusive sempre diz lá em casa que é tratado por ele como se fosse um filho. Na verdade, meu pai enxerga o teu avô como se fosse um segundo pai para ele! Provavelmente ficarão muito contentes com seu convite, e se deixarem, eu apareço aqui na Sede de vez em quando sim.
Adriana e Cecília tornaram-se amigas, e passaram a frequentar juntas a casa da Sede e também o casebre do Ipê, onde morava a família de Maurício.
Cecília estava feliz: Nunca estivera antes em casa de agregados, e não tinha nenhuma ideia de como a vida era levada ali, nem o que as pessoas faziam para sobreviver com tão pouco.
Adriana não cabia em si de contentamento; toda vez que visitava Cecília na casa do avô, pedia-lhe que pusesse alguns discos para tocar no Gramofone. Apesar da precariedade das gravações daquela época, a menina adorava ouvir as músicas, imaginando como a tecnologia avançava, sendo capaz de guardar as vozes e melodias num disco tão fino!
Numa dessas visitas, Cecília revelou:
__Gostaria muito de aprender a música, Adriana, pois tenho vontade de criar minhas próprias canções. É algo estranho de se pensar, principalmente para uma moça que nasceu e vive na roça... Mas é o que sinto vontade de fazer! Porém, aqui na Fazenda é impossível... As pessoas por aqui sabem tocar apenas “de ouvido”, não conhecem as notas. Falei isso ao teu irmão, um dia, e ele me respondeu dizendo que só na cidade grande eu poderia aprender. Ele também me falou do desejo de se mudar para São Paulo... Você acha, Adriana, que um dia ele volta para lá?
Adriana notou que no fundo, a pergunta ocultava alguma preocupação, mas não conseguiu discernir o que era. Adriana então respondeu:
__Maurício é muito ligado à família, se bem que nos surpreendeu com esse pedido que fez ao papai! Sendo o mais acanhado dos irmãos, foi também o único que se arriscou sair de casa na tentativa de uma sorte melhor. Todavia, não acredito que ele tenha coragem de ir embora para longe de casa. Pois morando em Acemira, papai o fez prometer que sempre estaria aqui, a nos visitar. A não ser que haja um motivo forte demais, que o faça abandonar tudo e se mudar para longe! E com certeza, para ele é mais importante viver com pouco – porém viver perto da família – do que ir embora para ganhar a vida, mas vivendo longe de casa. Não acredito que ele vá embora daqui, não sem um grande motivo.
Cecília demonstrou no olhar um ar mais aliviado...
Adriana prosseguiu, sorrindo divertida:
__E quanto a música, Cecília, se um dia sentir a inspiração das musas, crie com ela uma canção! Coloque letra e melodia, sem se preocupar com as notas. E se não souber a melodia, crie apenas a letra, deixe a melodia comigo!
E assim, em contato com a família de Alécio, Cecília teve a oportunidade de aprender um pouco sobre a personalidade de Maurício – aquele menino tão calado, mas que ela considerava de uma inteligência brilhante, e que a fascinava cada vez mais. E a família de Maurício também aprendeu amar Cecília, essa menina de coração tão dócil, que os tratava por igual, mesmo vivendo uma vida tão diferente de toda aquela pobreza!



Capítulo 10: "Em Acemira"




A Escola Rural que havia no Arraial não seguia um padrão convencional de planos de aula. Mantida pela Prefeitura de Acemira com parcos recursos e com a ajuda da Paróquia (que tinha cedido o prédio), tanto a Escola quanto o Arraial estavam em área de litígio que havia entre Acemira e Curuajubá. Assim, meio que abandonada, sobrevivia da boa vontade dos fazendeiros locais e da mão de obra dos agregados que às vezes lhe respaldavam as paredes, pintavam a construção e reformavam seu telhado.
As três professoras eram enviadas por Acemira uma vez na semana, e tinham de atravessar o lago no batelão. Cobrava-se uma taxa na travessia, mas a Prefeitura pagava a passagem das três professoras. E só era possível fazer a travessia quando o tempo estivesse bom. Por causa disso, o aluno da Escola Rural seguia um ritmo mais lento de aprendizado. E a conclusão do Curso seguia lentamente, nunca terminando exatamente num ano, mas estendendo suas matérias até mesmo por dois anos ou mais, conforme a disponibilidade das professoras, a frequência dos alunos e o volume de matérias aplicado. Não projetada para incluir seus alunos em graus superiores da Educação, a Escola Rural limitava-se a ensinar noções básicas da Língua Portuguesa, Matemática, História e Geografia. O aluno terminava o Curso com capacidade de fazer contas e negociar, de ler razoavelmente bem qualquer texto – desde que não se aplicasse palavras complexas. E era só isso.
Maurício completou o Curso quando estava já com quinze anos de idade. E com dezessete foi para Acemira.
Na pequena cidade Maurício se viu pela primeira vez independente, com a responsabilidade de tomar agora suas próprias decisões – desde que não esquecesse jamais dos bons exemplos de moral que sempre recebeu de seus pais. Os primeiros meses foram muito difícil, era adaptação e o trabalho exigia assiduidade no emprego e lhe consumia o tempo por doze horas ao dia – das sete horas da manhã até as sete da noite e de Segunda a Sábado. Na Escola Pública – que também só oferecia o Primário naquela época – disseram-lhe que talvez precisasse voltar um ou dois graus no estudo, para se enquadrar com as outras crianças, em conformidade com aquilo que estavam estudando – crianças que por sua vez eram bem mais jovens do que ele! Somente assim Maurício conseguiria o diploma exigido e as condições necessárias para prosseguir com os estudos e fazer algum curso superior no futuro, procedimentos que deveriam ser continuados em outra cidade, distante e mais desenvolvida...
Diante de tantas dificuldades, Maurício, porém, com sua determinação, não desistiu. Embora de imediato não fosse possível continuar os estudos, todavia permaneceu em Acemira trabalhando no Bar do Josias e a cada quinze dias voltava à casa dos pais para almoçar com eles e matar a saudade.
Saudade foi um sentimento que acompanhou Maurício desde sempre: Ligado aos pais, porém morando agora do outro lado do lago, o rapaz viu a distância impor limites no contato que havia entre eles. Cansado da jornada de trabalho, quando terminava o dia às vezes descia até o lago para observar as águas e as terras que existiam depois dele, contemplando a estradinha que subia o barranco do outro lado em direção às terras de Getúlio, enquanto o Sol recolhia seus últimos clarões por detrás das montanhas...
Naquele Domingo haveria de tomar o barco emprestado e atravessar o lago. Seria uma boa caminhada, pois deveria percorrer todo o caminho, desde o barranco onde o barco atracava até o Arraial. Eram três quilômetros de muita subida e a estrada judiava dos pés – mesmo calçado com sapatos fechados, pois a estrada era cascalhada. O caminho era ladeado por antigos – porém firmes – mourões de candeia ligados entre si por arame farpado, que cercavam os pastos dos dois lados da estrada – Candeia é a madeira de uma árvore abundante na região, cujo cerne duríssimo é capaz de sustentar uma cerca por mais de uma década.
Esse pedaço de estrada é riquíssimo em frutas nativas, fáceis de serem colhidas por quem ali caminha com fome, pois crescem livremente à beira da estrada: pés de gabiroba, maria-pretinha, murici, uvalha, mamica-de-cadela, fruta-de-grilo e outras, que só as conhecem quem já viveu em Minas Gerais...
Chegando ao Arraial, continuaria sempre adiante, passando pela Escola Rural e tomando um caminho de estrada antiga que com o tempo afundou no terreno, deixando por vezes barrancos altos dos dois lados da estrada. Antigamente havia por lá emboscada de onças, que entre uma curva e outra da estrada atacavam os transeuntes a pé, solitários e desatentos, pulando sobre eles desde o alto dos barrancos... Agora já faz tempo que não se ouve casos assim. Ou as onças se extinguiram ou foram caçar em terras longe daqui.
Do Arraial até a casa de seu pai, Maurício deveria caminhar doze quilômetros – ou seja, uma légua até a porteira da Sede e prosseguir adiante por mais uma légua. Essa etapa da viagem que continuava além da porteira da Sede era mais fácil, pois o caminho principiava um pequeno declive que se pronunciava conforme a estrada seguia em direção ao pé da Serra, que estava ainda distante muitas léguas dali.
Mas para aquele Domingo, Maurício sentiu que tinha uma missão diferente: tinha de levar uma redação escrita, que foi prometida à neta de Getúlio antes mesmo de se mudar para Acemira...
A labuta da vida e a saudade da casa paterna que lhe atormentava dia e noite, consumiram-lhe completamente os pensamentos durante aqueles dias passados em Acemira, e Maurício sequer tinha se lembrado da promessa que fizera à Cecília. Além disso, quem garante que não fora aquele pedido da menina apenas uma forma de entabular conversa? Quem garante que Cecília não falou sobre a Escola, as redações e tudo mais apenas para preencher o tempo em que ficaram a sós, ao lado daquele cactus antigo e mudo, sem outro assunto para conversar? Porque a neta de Getúlio haveria de querer ler a redação de um menino que há dois anos saiu da Escola e nem mesmo ele se lembrava mais do que andou escrevendo?
Já fez tanto papel de bobo na Escola – pensou Maurício – riram-se dele o tempo todo em que ali estudou e o menino nunca retrucou nem discutiu com ninguém. Magérrimo, sabia que seus colegas tinham razão em notar seu físico, inadequado para o trabalho rural. E não queria agora, depois de tudo isso, fazer papel de infantil, levando à Cecília uma redação como se fosse uma pequena criança entregando à professorinha seu dever de casa... É provável que Cecília agradeceria com educação, mas, com certeza, estaria se rindo por dentro de tamanha infantilidade... E a última coisa que Maurício desejava, era ser motivo de risos outra vez.
Decidiu, então: Não faria a redação.
Aliás, mesmo que quisesse fazer, não haveria mais tempo, pois a tarefa demandava algumas horas de reflexão – tempo que ele já não tinha mais, pois o Sábado já anoitecera e Maurício precisava descansar. E descansar bastante, pois a caminhada no dia seguinte seria longa, debaixo de um Sol quente... Ainda que na volta para Acemira seu pai o trouxesse na garupa do cavalo até o barco, todavia percorrer a pé os quinze quilômetros na viagem de ida, num dia de Domingo – e depois, quando voltasse, enfrentar a semana inteira num trabalho que lhe consumia doze horas por dia, era algo cansativo, sobre-humano mesmo, para Maurício.
Olhou pela última vez o espelho d'água cuja superfície o vento calmo perturbava, e que se escurecia cada vez mais conforme o céu mudava de violeta escuro a um negro salpicado de estrelas. Do outro lado do lago as terras de Getúlio mergulhavam na escuridão. O que fazia agora Cecília? Certamente estava em companhia de seu avô e de Amélia, na grande casa da Sede. Ou talvez tivesse voltado à casa de sua mãe, para passar com eles o final de semana...
Do casebre de seu pai, com certeza subia o fumo pela chaminé do fogão a lenha, na preparação do jantar. O que comeriam esta noite? Será que o pai já matou aquele porco que criavam por vários meses no cercado que havia no fundo do quintal?
Maurício lembrou-se que ainda não tinha jantado; deu meia-volta e retornou à casa. Definitivamente, o rapaz precisava descansar bem naquela noite.
E sendo assim, não faria a redação e pronto!
Com certeza, Cecília nem se lembrava mais disso.


Capítulo 11: "O caminho que vem do Lago"



  

Já disse que gosto de observar daqui desse ponto diante da Sede e desse cactus antigo, a estrada que vem da Serra, serpenteando toda poeirenta, fazendo um zigue-zague em volta dos morros e cortando riachos?
Se disse, desculpa-me, por favor. Ando relapso ultimamente e as memórias recentes me falham. Provavelmente já falei, mas se falei, não me lembro. Todavia, ainda que ando esquecendo dos fatos recentes, nada me escapa das lembranças antigas, daquele tempo quando tudo era cheio de gente, tudo cheio de vidas.
Essa estrada que Maurício percorreu tantas vezes, e que sobe das margens do lago atravessando o Arraial, passando diante do Cemitério e da Escola Rural, e seguindo cruza a porteira da Sede e depois segue em direção à casinha de agregados onde uma delas possui um Ipê frondoso plantado ao lado da porteira, e seguindo adiante serpenteia a Serra em direção às terras mais desenvolvidas de Curuajubá, onde havia a Cooperativa... Ah, meu amigo! Essa estrada e seu aspecto me fixou bem na memória e lembro do movimento que havia sobre ela durante toda a semana e também aos Domingos.
Era gente para lá e gente para cá, uns caminhando em direção ao Arraial, outros voltando dele. O trote dos cavalos e a cantiga dos carros de bois eram constantes. O gado sendo tocado pelos capatazes estrada afora – na mudança de um pasto a outro, e as crianças vindo da Escola, o Vigário chegando em seu cavalo até a Capela, a turma de agregados carregando a enxada nas costas, seguindo até a Sede depois do mutirão... Lembranças vivíssimas daqueles tempos persistem na memória.


 Tudo passou. A enxurrada das chuvas abriu enormes valetas nos lados da estrada. Dos pequenos arbustos nascidos nas paredes do barranco, sobraram agora troncos nodosos de árvores penduradas, cujas raízes à mostra se agarram precariamente à terra traiçoeira dos barrancos, só na espera de uma chuva mais forte para cair. Animais perderam o medo natural dos humanos e circulam aqui e ali: tatus, ratos-do-mato, gambás, lobo-guará e até mesmo uma jaguatirica eu já vi passar por aqui. Pontes apodreceram e riachos assorearam, mudando seus cursos onde cruzavam com a estrada. A Escolinha já fechou. Não tem mais alunos para ensinar. Suas janelas e portas permanecem fechadas, até parece uma velha senhora que fecha os olhos, não querendo ver seus filhos indo embora...
O Arraial ainda tem moradores. Mas são bem menos do que naquele tempo. Da parede das casas, voltadas para a rua, em muitos pontos se vê os tijolos de adobe, nus, depois que o reboco caiu. As ruas estão malcuidadas e a Igreja precisando de reformas que há muitos anos não acontece pois se acabaram as quermesses e as festas para angariar dinheiro. Não tem gente suficiente para festejar. E a pracinha acanhada, hoje está cheia de matos e arbustos selvagens.
O aspecto geral desse lugar dá pouca evidência de que por aqui ainda existe alguma civilização ativa.
O Cemitério às vezes recebe um “novo morador”, mas até mesmo a chegada de um novo morador vem diminuindo sua frequência a cada ano, pois os vivos que morrem não estão sendo substituídos por outros vivos no Arraial, porque há tempos que já não nascem mais crianças por aqui e as famílias que sobraram aos poucos se retiram para a área urbana mais desenvolvida. Em breve, poderá se abrir o portão do Cemitério ou talvez lhe derrubar os muros e deixá-lo se integrar com a paisagem do Arraial, visto que em pouco tempo, tudo isso será um local de mortos. Um Arraial fantasma visitado apenas por animais silvestres.
O Cemitério é dividido em duas alas: a esquerda onde sepultam os fazendeiros e seus familiares, e a direita onde o restante da população é sepultada.
 Seguindo pela via principal que vem desde o portão até a quarta entrada à esquerda, onde o terreno principia a descer num declive, encontra-se o túmulo de Amélia... Sei-o de cor, e não poderia saber de outro modo, pois não restou nenhuma indicação mais precisa: a cruz já foi consumida pelos cupins e o mato tomou conta de tudo ao seu redor. Há um vestígio, um montículo só, ressaltado, e que indica haver ali uma sepultura. E eu sei: É ali o descanso final de Amélia.
Houve um grande cortejo e muita comoção por ocasião da morte, com a família de Getúlio, os fazendeiros da região e todos os agregados da Fazenda Águas Frias no seu funeral. A Missa foi rezada na Capelinha mesmo, pelo vigário de Acemira. E depois seguiram todos em fila indiana trazendo o caixão. A estrada ainda era boa, e o Arraial se preparou com esmero para receber o corpo de Amélia. Faixas negras e roxas foram penduradas em todas as portas e o comércio fechou. A Igreja repicou dolorosamente o sino em dobraduras tristes enquanto as pessoas ao lado da praça – naquele tempo bem cuidada – observaram de olhar triste e chapéus nas mãos a passagem do cortejo que conduzia o féretro lentamente. As pessoas persignavam-se gravemente ao passar o caixão. E por fim, depositaram-na bem ali, naquele jazigo do Cemitério.
Eu lembro de como foram tristes aqueles dias. Ainda que o tempo destruiu sua cruz e levou com ela seu nome e qualquer identidade, eu sei que Amélia está ali.
Ou, pelo menos, seu corpo...



Agora está tudo assim: Tudo abandonado e esquecido – bom, nem de todos esquecido – mas está assim, solitário: tanto o Arraial com todas as suas construções, como o Cemitério, a Escola Rural e toda a extensão da estrada que Maurício percorrera naquele longínquo Domingo em direção à casa de seus pais. Tudo agora tão vazio e tão só...
Hoje está assim, mas naquele tempo fora melhor.


Capítulo 12: "A redação"




Estava claro o dia, e Maurício levantou cedo; após o café, vestiu-se adequadamente e pôs-se a caminho. O barco o levou através do espelho d'água rumo ao barranco do outro lado onde se inicia a estradinha. A profundidade máxima desse lago é de dez a doze metros no ponto mais profundo que é na curva do “U”, onde se juntaram as águas dos dois rios. E uma distância de mil e quatrocentos metros separam as duas margens entre Acemira e as terras de Getúlio. Maurício levava a tiracolo seu embornal com algumas guloseimas compradas ali mesmo na padaria da cidade. Sua mãe gostava dessas coisas, sentia saudades das padarias da Capital onde a tradição portuguesa ditava as receitas dos pães e doces….
Por volta das nove e meia se aproximou da porteira da Sede. De longe avistou uma figura: Plantada em pé, lá estava Cecília. Vestida em roupas de seda, dava impressão que se preparou para ir a uma festa. A menina irradiava beleza, com sua pele alva e macia em contraste com o tecido escuro, que se agitava ao menor sopro da brisa. As mãos nervosas alisavam o cabelo dourado e afastava suas mechas do rosto, aqueles fios de ouro que o vento insistia em revirar. Maurício de imediato não compreendeu o motivo de encontrá-la tão cedo ali à beira da estrada, mas à medida que se aproximava se lembrou da redação. Sequer imaginava que o motivo de Cecília estar ali naquele momento, fosse justamente a redação.
“Todavia” – pensou – “pode ser que de repente ao cumprimentá-la, eu venha receber a cobrança de Cecília, a respeito da redação – mesmo que a cobrança seja apenas para sustentar um assunto qualquer”.
Cecília notou o rapaz que se aproximava. De olhar atento, acompanhava cada passo do moço, deixando transparecer uma leve impaciência, como se há muito tempo esperasse por ele; até que, por fim, se encontraram.
__Olá, Maurício. Como vai?
__Olá, Cecília. Vou bem. E você?
__Aqui está tudo bem. A calma de sempre, né? Mas está tudo bem. Só Tia Amélia, que está um pouco adoentada, meio desanimada. Parece uma constipação, mas não há de ser nada.
__Ah, sim! Não há de ser nada, Cecília. Talvez a mudança do tempo, que não firma nem calor e nem frio. Isso mexe com a saúde das pessoas. Espero que lá em casa mamãe, papai e meus irmãos estejam bem. Daqui a pouco estarei lá com eles.
Então Cecília foi logo ao assunto, demonstrando vivo interesse no olhar:
__Maurício, você lembrou da minha redação?
Naquele momento Maurício gelou por dentro: Sim, teria lembrado, mas não acreditava que realmente ela se importasse com isso. Resolveu ser sincero com a moça:
__Sim, lembrei. Mas achei que você nem se lembraria disso. Afinal, as redações que eu fazia na Escola eram textos comuns, coisas sem importância, e muitas vezes nem mesmo eu as compreendiam….
Fazendo um gracioso muxoxo, demonstrando um ar triste no olhar, Cecília respondeu:
__Eu já sabia que você não se importaria de escrever…. Falei para tua irmã: Agora você está na cidade, como há de se lembrar daqui?
__Oras, me lembro sempre daqui. Por acaso não estou vindo aqui visitar meus pais?
__Sim, deles você se lembra, mas não se importou em escrever a redação para mim….
Nesse momento, Maurício não estava mais rubro de vergonha, já tinha ficado roxo e agora o sangue lhe fugia das faces, deixando-o pálido. O que foi, é claro, notado por Cecília que se divertia muito com a situação encabulada do moço.
__Desculpa-me. Juro que escrevo. Se der tempo, escrevo-a hoje ainda e entrego nas mãos de Adriana. Senão, trago-a da próxima vez que eu vier. Mas agora, deixa eu seguir, quero estar com meus pais antes do almoço. Eles me esperam. Estimo melhoras à sua tia Amélia. Até mais!
Assim seguiu Maurício até a casa dos pais, remoendo no caminho a conversa que tivera com Cecília e repreendendo sua própria timidez, imaginando se porventura não tinha dito algo bobo ou idiota para a menina. Seguiu em passos ligeiros, fugindo da situação….
E ficou Cecília ao lado do cactus, observando Maurício diminuir na distância, até sumir na curva da estrada. E a menina sorria, com as faces coradas quando tomou o caminho em direção à Sede. Mas não deixou de se preocupar com a saúde de Amélia….

O rapaz foi recebido com festa e muita alegria pelos pais e irmãos que o esperavam ansiosos.
Recebia abraços e beijos de toda a família, naquela alegria natural da chegada de um filho. A mesa já estava posta, as panelas aquecendo ao lado do fogão a lenha, e só faltava ele chegar para que todos almoçassem. O pai tinha matado o porco sim, para o almoço de Domingo…
Após o almoço, seu pai veio lhe falar:
__Sabe Maurício, talvez a gente precise ir embora desse lugar…. Tenho bastante apreço por Getúlio, que foi muito humano e arranjou esse teto onde a gente mora e serviço nas lavouras. Mas você sabe, o Narciso não gosta de nós. Não sei se esta mudança vai acontecer ainda neste ano, mas queria que você soubesse que nossa morada permanente não será sempre aqui. Quem sabe um dia estaremos todos juntos, reunidos num almoço de Domingo, mas não aqui – lá em Acemira talvez, se teu pai conseguir emprego por lá.
Maurício ouviu calado e atento, mas sentiu uma tristeza pairar o coração, sem ainda saber explicar o motivo. Afinal, não queria ele por toda força e lei, sair daquela roça e voltar para a cidade? Não queria tanto, que, por fim, deixou seus pais e irmãos ali e foi se aventurar em Acemira? Então porque agora, ao receber tal notícia que seu pai lhe dava, uma ponta de tristeza surgiu no coração, desejando que isso não mais acontecesse?
Mas nada falou sobre isso, apenas escutou. A decisão do pai sempre foi respeitada, quando se tratava dos destinos da família. E mesmo sendo Curuajubá mais desenvolvida e, com certeza, com mais possibilidades de emprego, o velho Alécio ainda preferia Acemira….
Nesse momento, Adriana se aproximou e chamou Maurício. Seguiram os dois pelo caminho que vai da casinha até o Ipê plantado à entrada da porteira.
__Maurício, eu sempre vou lá na Sede. Fiz amizade com Cecília e outro dia ela me cobrou a sua redação…. Por acaso você se lembrou de escrevê-la?
__Sim, me lembrei. Mas não escrevi. Não quis fazer papel de criança, trazendo um papel rabiscado para você entregar à neta do patrão. Mas ela me viu quando passava diante da porteira da Sede, e me cobrou. Se soubesse que ela realmente queria, eu teria escrito.
__Teria escrito mas não teria entregado, não é? Conheço-te muito bem Maurício, e você precisa mudar. Deixa de ser tímido e se abre mais com as pessoas. E agora? Você vai escrever?
__Sim, Adriana. Vou escrever, mas entrego da outra vez que vier aqui.
__Sim, faça isso. E não seja bobo. Papai quer sair daqui por causa do Narciso, mas eu não quero de jeito nenhum. Eu gosto daqui. E Getúlio gosta da gente e agora também sou amiga da Cecília. Se eu fosse você, cada vez que aparecesse por aqui, dava também uma passadinha lá na Sede. Ao menos para cumprimentar o Getúlio. Papai lhe empresta o cavalo, se você quiser, e antes dele te levar até o barco, você poderia passar lá na Sede e fazer uma visita. Seja mais aberto com as pessoas, irmão. Ao menos com aqueles que lhe estendem as mãos...
__Sim, Adriana. Vou mudar meu jeito, prometo. Mas não hoje. Cheguei um pouco tarde, pois me detive uns momentos lá na estrada e circulei as ruas do Arraial também. Mas da próxima vez eu passarei por lá para ver o velho Getúlio e se possível entregar a redação à menina. Da próxima vez que eu vier, farei isso não quando estiver voltando para Acemira, mas quando estiver chegando aqui. Demorarei um pouco lá, antes de chegar na casa do papai.

Naquele dia à tarde, Alécio levou o filho na garupa do cavalo até o barranco, onde se atracava o barco. Ao passar diante da porteira, Maurício virou-se para o lado da Sede e com olhar atento procurou reconhecer as pessoas que se avistava desde o alto da estrada.
O movimento era intenso e deu para distinguir os filhos de Getúlio que começavam a guardar os carros de bois debaixo das árvores.
Havia alguns homens no terreirão revirando a colheita da lavoura estendida ali, onde ficava por vários dias até que o Sol a secasse. Mulheres subiam do moinho trazendo fardos de fubá sobre a cabeça. E debruçada numa das janelas da frente, numa visão quase já encoberta pelo telhado da varanda, julgou Maurício ter visto a cabeleira loura de Cecília observando a estrada...


Capítulo 13: "Amélia"




Nos dias que se seguiram, Amélia piorou. Parece que se abateu sobre ela a mesma enfermidade da mãe. Apesar de ainda jovem e forte, Amélia se prostrou na cama e pouco se levantava de lá. Não havia gemidos, mas apenas uma frouxidão nos músculos e uma vertigem, numa dificuldade enorme para se levantar da cama, de onde saía apenas amparada pelo marido ou por Cecília.
Cecília agora se viu com a responsabilidade de gerenciar a casa, cuidando das refeições do avô e dos cuidados com Amélia.
Cássio, pegando o automóvel do sogro emprestado, levou Amélia até Curuajubá, conduzindo-a ao médico da cidade para uma consulta. Mas o Doutor não conseguiu identificar a doença. E Amélia não quis ficar ali, apesar das recomendações médicas, e pediu insistentemente ao marido que a trouxesse de volta à Fazenda. Fazer o que na cidade? O médico nem descobriu sua enfermidade... Melhor passar os dias na Fazenda, rodeada dos entes queridos.
A viagem de volta foi ainda mais fatigante para a jovem senhora cuja saúde se deteriorava a olhos vistos. Todos pensaram: “Será que Amélia vai ficar acamada, e vai sofrer com essa longa doença misteriosa, da qual ninguém descobre o que é, como sofreu a mãe?” Mas certamente Amélia não passaria tanto tempo assim, porque piorava a cada minuto.
Cássio se viu cada vez mais angustiado, pensando se fizera o correto, atendendo o pedido da esposa e trazendo-a de volta. Em Curuajubá, todavia, a esposa teria alguma assistência médica, caso ela piorasse. Mas, como socorrer a mulher ali, na Fazenda? O que fazer numa situação dessas?
Foi chamado às pressas o Vigário de Acemira que ainda levou dois dias para chegar. Era um Sábado à tarde quando o Vigário chegou, e vendo o estado de Amélia, tomou-lhe logo a confissão.
Não deu sequer tempo do Vigário voltar à cidade. Naquela mesma noite, Amélia febril delirou a madrugada toda. E o Vigário ficou para ajudar no que fosse preciso. Colocaram-lhe na cabeceira da cama uma vela, e o sacerdote sentando ao seu lado, rezou um terço e aplicou-lhe a extrema-unção. Cássio permanecia ao seu lado o tempo todo.
Amélia não resistiu. Do lado de fora, uma repentina ventania na escuridão da noite sacudia as árvores, perturbando os pássaros que nelas procuravam abrigo. Do seu quarto, onde Cecília retirara-se para descansar um pouco, a menina ouviu o revoar de pássaros – que perturbados pelo vendaval, mudaram-se para algum lugar mais longe, num grande alarido que se perdeu na distância.
Levantou-se e foi ao quarto da tia. Aproximou-se do corpo de Amélia e ajoelhando-se à cabeceira da cama, persignou-se diante do corpo já sem vida. Envolveu-a num abraço sem consolo e chorou a perda.

Domingo apesar de ensolarado, amanheceu pálido, sem cores, sem luz e sem perfume para aquela família. Getúlio, muito abalado mandou recado à vizinhança: Haveria Missa de corpo presente para Amélia às onze horas daquela manhã.
Compareceram todos agregados e os fazendeiros da região. Compareceu inclusive a família de Heitor – um grupo de pessoas que não nasceram ali, uma família que a pouco tempo tinha chegado das terras próximas à divisa com o Rio de Janeiro, para possuir a herança de seus avós, cujas terras eram vizinhas da Fazenda Águas Frias. Não coube tanta gente na Capela, então Getúlio providenciou bancos do lado de fora e em volta do Cruzeiro, e assim, naquela manhã, todos repartiram com ele aquela dor imensa, incurável.
Sim, uma dor incurável que puxou Getúlio bem devagar para dentro de sua própria cova também.
Daquele dia em diante, Getúlio nunca mais foi o mesmo. O olhar tornou-se perdido, distante e turvo, e o semblante triste. Emudeceu, respondendo a todos com monossílabos “sim” e “não” quase sempre.
Estava com seu corpo ali, mas permanecia ausente de espírito. Perdeu todo o interesse sobre a lavoura, o gado e quaisquer outras coisas. Nem mesmo à Capela subia agora, limitando-se a observar de longe as Missas, sentado na varanda que dá vistas para a Capela.
Cecília agora, mais do que nunca precisava se dedicar ao avô e às coisas domésticas da Sede.

E Maurício não pôde comparecer à casa dos pais naqueles próximos quinze dias, como tinha sido combinado. O patrão viajou e deixou-o encarregado dos negócios. Sobrecarregou-lhe o serviço e as responsabilidades, e com medo de, por qualquer motivo, atrasar-se na Segunda-feira, preferiu Maurício não visitar os pais como era de costume. Mandou somente um recado através das professoras que atravessaram de batelão, avisando que somente visitaria a casa de seus pais quando o patrão retornasse.
Ali na Escola Rural, chegando a professora e passando o recado adiante, qualquer menino se encarregaria de avisar seus pais. Era assim que funcionava o sistema de recados...
Foram quarenta e cinco dias de ausência, quarenta e cinco dias terríveis para aquelas pessoas do outro lado do lago, dos quais Maurício nem sequer suspeitou o que estava acontecendo. Havia um isolamento total entre aquelas terras do Arraial e o lado de cá, onde Acemira se assentava. Por conta do litígio de terras que havia entre Acemira e Curuajubá acerca do Arraial e das terras que o circundava, situação que se complicava ainda mais por causa da opinião dividida entre a população de Acemira e a opinião dos autóctones do outro lado do lago, alguns querendo pertencer à Acemira e outros não – essa terra – que por esse motivo era quase considerada como “terra de ninguém”, mantinha-se isolada e pouca notícia mandava de si para a cidade.
Ali em Acemira, ninguém soube que Amélia morreu – exceto aqueles mais chegados ao Vigário, que souberam de sua retirada num fim de semana até a Fazenda.
E então, ao cabo de um mês e meio, outra vez Maurício cruzou o lago sobre o barco, pondo-se a caminho em direção à casa dos pais – dessa vez porém, levava consigo a redação.

Maurício fora observador e muito criativo desde mesmo a pequena infância, na Capital Paulista. Gostava de observar e analisar por todos ângulos possíveis, qualquer situação e qualquer coisa que lhe viesse diante do olhar e lhe chamasse atenção, mesmo aos cinco anos de idade – o que lhe proporcionou lembranças nítidas daquele tempo. Lembranças da primeira infância as crianças geralmente esquecem, mas o rapaz mantinha as suas – embora poucas – bem preservadas, justamente por causa de seu dom peculiar de observação.
E a presença singular de um cactus velho e solitário ao lado da porteira da Sede, num lugar de terras secas e poeirentas, já havia lhe chamado a atenção. E resolveu usá-lo como tema da redação.
Eis o título de sua redação: “O Cactus”
Na redação Maurício descreveu minuciosamente todo mecanismo de sobrevivência de um cactus – em especial aquele tipo de cactus que estava plantado ao lado da porteira da Sede. Mas o rapaz não se deteve aí. Quis fazer sobre o assunto um bonito paralelo entre a resistência do cactus e o sentimento de amor. Mostrou a persistência do cactus que sobrevivia mesmo nas mais hostis situações, quando o Sol inclemente castiga a Terra aniquilando todas as formas de vida, e esta planta vai armazenando para si as mínimas gotículas de água e até mesmo o sereno, conseguindo sobreviver enquanto todas as outras plantas já morreram, aguardando pacientemente a chuva.
Nesse paralelo, Maurício citou o sentimento do Amor: comparava Maurício a persistência do cactus com a perenidade do amor verdadeiro, que mesmo longe, solitário, sem cuidados, sem notícias, ou sem esperanças, continua sobrevivendo, se valendo das gotículas de lembranças e das imaginações – de coisas acontecidas, ou não. E enquanto os demais sentimentos morrem – inclusive a esperança, o amor segue sobrevivendo. E como o cactus, o amor vive sempre a esperar a próxima chuva que vai cair – uma chuva de redenção que talvez jamais caia.
E foi uma redação falando sobre esses fatos, que Maurício levou dentro do embornal, lacrado num envelope.



Era de manhã e Alécio estava em pé ao lado do Ipê plantado junto à porteira, espetando uma caveira de boi no mourão da cerca, quando Narciso chegou.
__Senhor Alécio, precisamos conversar – Narciso foi logo dizendo, sem ao menos cumprimentá-lo com um “bom dia”.
__Mandarei um empregado hoje à tarde para recolher a vaca que meu pai deixou aqui! – prosseguiu dizendo Narciso.
Alécio parou o que estava fazendo, e medindo o homem que sequer desceu do cavalo, respondeu:
__Porque faz isso, senhor Narciso? Há tantas vacas no pasto, e até melhores do que esta!
Narciso insistiu:
__Se não mando buscar, sou obrigado a ceder uma vaca para cada agregado que há na Fazenda. É tratamento igual a todos, senhor Alécio!
__Mas foi teu pai que a mandou para cá. Devia deixar ele tomar a decisão! Mas o motivo não é igualdade no tratamento – respondeu Alécio, que sempre soubera da implicância de Narciso. E prosseguiu:
__Mas tudo bem; cada um de nós, no final recebe aquilo que merece. Se eu mereço isto, que seja assim. Mas não se preocupe; o teu pagamento também logo vem.
Narciso então respondeu:
__Papai está doente. Quem toma as decisões agora, sou eu.
Picou esporas na ilharga do cavalo, fustigando-o com o chicote e se foi, enquanto Alécio continuou ajeitando a caveira de boi no mourão da cerca.
Dizem que uma caveira de boi espetada próximo à entrada da casa – de preferência no mourão que sustenta a porteira – ajuda a espantar o mau agouro e protege a casa do mau-olhado, do quebrante, vento virado e de outras doenças causadas por ele. Alécio não acreditava nisso, mas como diziam os mais antigos: “É melhor prevenir, do que remediar”.
Momentos depois, ao chegar em casa, Narciso recebeu a notícia: Sua melhor vaca leiteira, que estava prenha, já quase nos dias de parir um bezerro, morreu durante a noite – ofendida por uma cobra cascavel. Imediatamente Narciso ordenou que um empregado fosse à casa de Alécio e trouxesse de lá a outra vaca.

Vindo de Acemira, ao passar defronte a porteira da Sede, Maurício percebeu que havia uma fita negra enrolada sobre as travessas horizontais. Portas e janelas da grande casa estavam fechadas e não viu nenhum sinal de pessoas ali. Tudo quieto, silencioso, a chaminé não fumegava, os carros de bois estacionados paralelamente embaixo das árvores frondosas que ficam além do terreirão, agora também vazio. Percebeu que algo muito triste ocorrera naqueles dias em que esteve ausente. Não se deteve ali, mas com passos rápidos avançou os próximos seis quilômetros até a casa de seus pais.
Lá chegando, notou o ar triste de todos, o que sua irmã veio logo explicando:
__É Maurício, tivemos uma tristeza esses dias: Amélia, filha do Getúlio adoeceu e faleceu. Foi tudo muito rápido, nem dá para acreditar. Foi enterrada no Cemitério do Arraial.
Maurício ouviu tudo aquilo espantado, incrédulo, e comentou:
__Pois é, ao passar diante da porteira da Sede percebi que algo estranho havia acontecido. Não há sinal de pessoas na casa e na porteira tem uma faixa de tecido preto enrolada. Pensei até que fosse o Getúlio, por causa da idade...
__Então, meu irmão. O velho está muito mal. Não quer se alimentar e ontem mesmo levaram-no para casa de um dos filhos. Se melhorar, ele volta à Sede. Cecília retornou à casa de Irene, sua mãe. E o Narciso aprontou outra das suas: Veio aqui em casa e tomou a vaca que Getúlio deu ao papai... Estamos sem leite agora.
Então Maurício abriu o embornal e lá de dentro tirou o envelope fechado contendo a redação. Mostrou-o a Adriana e disse assim:
__Aqui está a redação que prometi a Cecília. Não tinha eu ideia dessa infelicidade e escrevi no papel coisas alegres. Mas agora, nessa situação, creio que Cecília não achará graça em mais nada daquilo que escrevi aí. Todavia, não sei quando a vejo outra vez, então deixo com você o envelope, e se puder entregar, faça-me esse favor. Só não entregue a ninguém mais, somente a ela.
__Sim, Maurício. Farei o possível para entregar. Vai ser mais difícil agora, pois na casa do avô eu sempre ia, mas agora está fechada. E na casa da mãe dela eu nunca fui. Além disso, papai qualquer hora vai arranjar serviço em outro lugar e quando isso acontecer, iremos todos embora. Você não precisará mais vir aqui para nos ver. Nos encontraremos em família em outro lugar... Todavia, entregarei à Cecília, assim que puder. – respondeu Adriana.
E naquele mesmo dia voltou Maurício para Acemira, triste pelos últimos acontecimentos daqueles dias, pela morte de Amélia e pela infelicidade que se abateu sobre aquela família, pesaroso pelo fato de seus pais terem de se mudar dali e decepcionado por não ter visto Cecília.
Realmente, o coração de Maurício começou a pender para esses lados da terra, cujo lugar e pessoas agora ocupavam boa parte de sua atenção e de seus pensamentos. Já enxergava o lugar com outros olhos e seu desejo de mudar-se para a Capital Paulista pouco a pouco foi perdendo a urgência dentro de si. Maurício já não tinha mais tantos planos de ir embora, apesar de suspeitar que ali naquelas terras não havia para ele nenhuma chance de conquistar aquilo que seu coração começava a pedir... Afinal, Maurício era um simples filho de agregados. Ou pior, era o filho de um futuro ex-agregado... O que valeria ele, diante dos olhos de Cecília?
Seu pai levava-o na garupa até a margem do lago, onde estava o barco. O trajeto foi percorrido em total silêncio; Alécio estava preocupado e Maurício sabia disso.
Quando o velho se calava assim, é porque alguma nuvem pesada nublava seus pensamentos. Era um homem de fibra, sempre otimista, mas quando as coisas pesavam demais, o velho se calava. Havia uma família para cuidar. Embora os filhos já estivessem todos criados, Alécio ainda sentia-se responsável pelo destino deles, pois ao mudar-se para o interior de Minas, sua vida regrediu muito. Sentia-se culpado de tudo isso, sabendo que por causa de sua decisão, hoje seus filhos não teriam mais a chance de serem doutores, mas apenas simples camponeses, filhos de um agregado prestes a ser expulso da terra. Pois, ainda que fossem pobres, um dia eles moraram na cidade grande, e apesar das chances mínimas de dar aos filhos um bom estudo, sempre haveria a possibilidade de algum deles se destacar nas escolas públicas paulistas e conseguir algum diploma que valesse a pena... Eram novos tempos; um gaúcho de São Borja, também chamado “Getúlio”, chegou à Presidência do País. E estava sendo bom para a Educação, que se modernizou bastante na última década, trazendo à população mais pobre e carente uma chance de estudar... Mas ali, naquele lugar, ou na pequenina Acemira, ir além do Estudo Primário se tornou algo definitivamente impossível.
Os filhos nunca o culpavam por isso, é claro. Sempre adoraram o pai e a mãe que tinham, e apesar das dificuldades que passavam, com certeza preferiam a vida calma do interior à vida estressante e perigosa da cidade grande. Mas assim mesmo, Alécio sentia o peso daquela decisão que tomou em tempos atrás, quando colocou toda família dentro de um ônibus e se mudaram para uma cidade que não os conhecia e que não os desejava ali, pois “forasteiros” não eram vistos com bons olhos na cidade de Acemira e nem nas terras circunvizinhas.
Mas isto era uma situação normal! Naqueles tempos remotos e atrasados, as pessoas do interior se protegiam de novos costumes, de novas culturas, até mesmo de novas religiões. Eram pessoas de sítios, pessoas rurais. Gente simples e pacata, sem vontade nenhuma de mudar seu modo de viver. O progresso chegava ali aos arrastos, e até mesmo a tecnologia era vista com desconfiança.
Atitudes como a de Getúlio, por exemplo, que mandou trazer um Gramofone do Rio de Janeiro, sempre deixavam os vizinhos alarmados, assombrados. Outro exemplo: quando houve a festa na Igreja Matriz de Acemira, com a intenção de angariar recursos e trazer um Cravo Alemão para o Coral, teve inclusive a resistência férrea dos chefes de família mais tradicionais da cidade! “Aquilo era muita novidade. Talvez fosse até coisa do Diabo” alegavam os mais radicais.
Eram rudes camponeses, enraizados na sua cultura mais tradicional, e tinham medo das novidades. Por causa disso, tinham medo do contato com as “pessoas de fora” e tinham medo de qualquer mudança na rotina da vida que esses forasteiros – muitas vezes com ideias estranhas, tão diferente das suas – por acaso pudessem trazer.
Eram os costumes dos camponeses daquele lugar, naquela época... Quase uma xenofobia... Mas não era só em Acemira: era assim em todos os lugares.
Era a vida.
E Maurício despedindo-se do pai, entrou no barco.